FRACASSOS E SUPERAÇÃO

PENSAMENTOS
PORQUE SOU DIFERENTE

QUANDO TUDO PARECIA PERDIDO EU DECIDI PLANTAR UM MARCO NA MINHA HISTÓRIA.

Quando 20 anos salvaram uma vida de 70

Depois dos 50 anos, ao olhar para trás, enxerguei uma vida marcada por fracassos e vergonha.

Minha consciência cobrava determinação e conhecimento. Eu não precisava ser um sábio, mas precisava me aprofundar na busca por respostas e compreender melhor a minha própria história.

Por que eu levava uma vida tão desequilibrada? Por que a falta de controle emocional me fazia entrar em pânico diante de situações tão pequenas?

A timidez extrema e a insegurança sempre foram obstáculos às oportunidades de trabalho e às conquistas afetivas. No convívio social, o complexo de inferioridade me diminuía.

Foi então que comecei a analisar a mim mesmo. Ao revisitar minha infância e adolescência, a primeira coisa que descobri foi que eu tinha tudo para não dar certo na vida. Percebi que era, em grande parte, resultado de uma formação deficiente. 

                                                        INFÂNCIA

Aos 6 anos de idade, meus pais me levaram para morar com a minha avó em uma pequena cidade a 4 quilômetros de distância de onde morávamos. Lembro-me de que no primeiro dia de aula um tio me levou até a escola,  onde fui entregue  à minha professora. Sem nenhum preparo, sem a mínima noção do que era uma escola, me vi diante de um mundo estranho.

A partir  do momento que fui entregue à professora, eu não passava de uma criança assustada, sem noção de nada. Foi como se alguém me dissesse: “de agora em diante você vai se virar sozinho!”.

Sem a minha mãe por perto para saber como foi meu dia, para dar uma noção de organização, para olhar meu caderno,  para me ajudar a me vestir ao sair para a escola, sem ninguém para dar pelo menos uma palavra de conforto (minha avó era analfabeta, não sabia desenhar nem o próprio nome, sem noção alguma para acompanhar minhas lições de casa).

Eu era uma criança que até então conhecia apenas a vida rural, sem o mínimo de convivência

com outras crianças. Ao me deparar com tantas outras, levei o primeiro choque: naquele mundo estranho, que na minha cabeça era apenas um ambiente barulhento, fiquei aterrorizado. Não conseguia fazer amizade com um único companheiro de sala de aula. Era como um animalzinho retraído, assustado e acuado, em um mundo totalmente desconhecido.

Me lembro que, com poucos dias de aula, no meu caderno tinha páginas amassadas, rabisca- das, na tentativa de copiar o ABC  da professora. Ela me cobrava dedicação,  e eu, tímido, não conseguia sequer  responder a uma pergunta. A  essa altura já não eram apenas as outras crianças que me assustavam, mas também a professora e a própria escola. Na verdade, eu vivia um pânico constante; me sentia inseguro,  e tinha medo de tudo, inclusive das pessoas.

Sempre soubemos  que  a escola  é  responsável pelo ensinamento e desenvolvimento da criança. No meu caso, a escola  condenou-me a um futuro dramático,  uma  trajetória  de  vida  desequilibrada  e cheia de entraves.

 “Quem nunca conheceu um gesto  de amor, não tem como reconhecê–lo.  

                                              ADOLESCÊNCIA

No início da adolescência, fui obrigado a trabalhar com meu pai na lavoura. Nos fins de semana, ficava feliz quando conseguia me encontrar com outras crianças e adolescentes da vizinhança para andar de bicicleta, nadar no rio ou jogar futebol em um pequeno campo improvisado no sítio de meu pai.

Foi assim que cresci, gostando de futebol. Contudo, por mais que tentasse, a bola e meus pés não se entendiam muito bem. Isso se tornava motivo de chacota entre os companheiros de time e me deixava aborrecido. Anos mais tarde, descobri que tinha um problema de coordenação motora.

Naquela época, minha única distração era o pequeno cinema da cidade. Sempre fui fascinado por filmes históricos, muito comuns naquele tempo, sobretudo os baseados em fatos reais. Desde criança, essas histórias alimentavam minha imaginação. Nunca tive interesse por filmes de ficção ou por narrativas que, a meu ver, não tivessem fundamento na realidade.

Como o dinheiro era escasso, lembro-me de que, certa vez, aos 15 anos, gastei o último centavo que tinha para comprar um atlas geográfico completo. Ao explorar o mundo por meio daquela obra, era como se eu estivesse viajando. Diante de mim surgiam os países, suas capitais e bandeiras.

O país que mais me chamou a atenção foi a Rússia. Fiquei impressionado com sua extensão territorial e maravilhado ao saber que fazia parte da União Soviética, então governada por um regime comunista. Embora soubesse muito pouco sobre o comunismo, tudo aquilo me fascinava. Como todo jovem sonhador, eu alimentava a esperança de um dia viajar e conhecer o mundo.

Durante a puberdade, tive dificuldade para me relacionar com as mulheres. Embora já despertasse em mim o desejo de conquistar uma namorada, minha dificuldade de comunicação representava uma grande barreira. A timidez sempre falava mais alto, deixando-me transtornado e sem jeito. No entanto, por ter o que na época era considerado uma “boa aparência”, algumas mulheres facilitavam a aproximação.

Nesse período, eu ainda me sentia profundamente perturbado em situações sociais corriqueiras, como simplesmente andar pela rua. Não conseguia deixar de pensar que as pessoas estavam me observando. Tentava me relacionar, mas não conseguia. Era uma insegurança sem fim, marcada por um intenso complexo de inferioridade.

Eu estava sempre em conflito comigo mesmo e me cobrava constantemente. Isso me fazia sofrer, pois, em minha consciência, parecia que eu fazia tudo errado. O tempo passava, e eu continuava lutando para superar meus medos e traumas.

Aos 17 anos, fiz o alistamento militar e passei a aguardar, com grande expectativa, os exames de seleção. Tinha muita vontade de ser aprovado. Em maio de 1966, já com 18 anos, fui servir em Foz do Iguaçu, no 1º Batalhão de Fronteira. Até então, ainda estava entusiasmado com a possibilidade de seguir carreira militar, embora já questionasse o sistema mantido pelos governos militares. Fui incorporado à CCS, a Companhia de Comando e Serviços.

No quartel, apesar da vida regrada, tive a oportunidade de conhecer alguns companheiros que eram estudantes e demonstravam discretamente simpatia pelas ideias de esquerda. Conversar sobre política e ideologias era arriscado naquela época. Ainda assim, às vezes encontrávamos oportunidades para trocar ideias, e assim aprendi um pouco mais sobre o socialismo.

Também ouvi falar da atuação do capitão Carlos Lamarca, que mais tarde se tornaria uma das figuras conhecidas da luta armada contra a ditadura. Mesmo vivendo em meu mundo fechado, com poucos amigos, sempre retraído e evitando participar de brincadeiras, eu observava atentamente tudo o que acontecia ao meu redor.

Questionava o mundo com base nos acontecimentos divulgados pelas notícias e procurava tirar minhas próprias conclusões.

Aos poucos, essas reflexões contribuíram para formar minha visão crítica sobre política, sobre o mundo que vivemos e sobre mim mesmo.

SE ANTES EU LUTUVA PARA FICAR RICO, HOJE AINDA LUTO PARA SALVAR ATRAVÉS DA COSCIÊNCIA A MINHA DIGNIDADE 

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