
Parte do meu livro, “Retratos da Vida. Relatos de Superação”
(parte 01)
TENTATIVA DE
RENASCIMENTO
Que chance tem de acertar na vida uma criança que nasceu e cresceu na pobreza, que chegou à idade adulta sem um acompanhamento afetivo, sem conhecer um gesto de carinho por parte dos pais ou de quem quer que seja, crescer e passar pela adolescência sem ouvir uma só palavra de conforto ou apoio moral, sem conhecer um gesto de amor?
O resultado foi uma vida cheia de entraves, mas por mais árdua que tenha sido a luta, não desisti do sonho: foi uma vida tentando vencer as adversidades.
Foram muitos sonhos, muitos planos e muitas decepções, mas um sonho sempre falou mais alto: a realização do sonho que poderia dar sentido à minha vida, e deste eu nunca desisti. Sempre pensei que a minha passagem nessa vida só se justificaria se eu escrevesse pelo menos um livro, nem que fosse um livreto de sessenta páginas deixando um legado sobre minhas ideias.
Eu sabia que um dia, lá no futuro, um neto ou
neta iria querer saber de sua origem genealógica.
Sempre tive essa coisa de querer perpetuar meus ideais registrados, essa vontade de deixar para os descendentes o relato de que eu tive um lado ideo- lógico, com a convicção de que o futuro irá mostrar que estive do lado certo.
Mas o mais importante é que eu sabia que estava para acontecer a oportunidade de expor minhas ideias através de um livro.
“Nessa minha teimosia persistente, pude me encontrar comigo mesmo.”
Encontrei meu lugar como ser humano, descobri meu papel nessa passagem chamada “vida”. Nessa busca pelo entendimento, descobri a minha religião, sem me importar se o único seguidor do meu pensa- mento religioso fosse eu mesmo.
Porém, para falar da realização do meu sonho, tenho que contar a origem de tudo isso, já que não faria sentido escrever sobre o meu histórico de vida sem falar do problema que interferiu de maneira negativa em toda a minha existência. Impossível entender minha luta sem saber que existia um pro- blema acima de todos os outros, a causa dos meus desequilíbrios emocionais: a timidez
A timidez pode não ter efeitos físicos, mas causa muitos efeitos mentais.
Eu vivia constantemente aborrecido, frustrado, seja por não ir bem em uma entrevista de emprego, seja por uma má apresentação em um determinado evento, por não conseguir falar em público ou de conversar com aquela moça que acreditava ser a namorada dos sonhos.
Estou falando, no meu caso, de uma timidez que considero crônica, pois sempre estava presente: era a grande barreira em todas as situações em que eu dependia de altivez para me comunicar. Sei que a timidez é um mal que se manifesta de formas diferentes, de pessoa para pessoa. Na verdade, essa profunda timidez me fez vítima de um problema que pode ser chamado de “fobia social”, pois à medida que fui amadurecendo, gradualmente fui me sentin- do mais seguro. A verdade é que não consegui me libertar totalmente da dificuldade em me sentir à vontade em ambientes sociais.
Mas, enfim, se hoje tenho uma história para contar e consigo contá-la por meio da escrita; se hoje posso escrever minhas ideias; se hoje tenho opinião formada socialmente e geopoliticamente; se hoje me considero uma pessoa bem informada (com minhas limitações, é claro), tudo isso é devido à persistência, teimosia e determinação de preencher uma lacuna em minha vida retraída e confusa.
“Ao conseguir registrar minha história, saberei que minha vida valeu a pena.”
Hoje, conseguindo registrar minha história de maneira didática, só de pensar que o meu relato histórico um dia poderá ser útil a uma mãe ou a um pai, que depois de ler e pensar sobre as causas que provocam medo e insegurança na vida da criança, saberei que minha vida valeu a pena.
Sonhei muito em toda minha vida, mas nenhum outro sonho foi mais intenso do que o sonho de escrever pelo monos um livro.
INFÂNCIA
Aos 6 anos de idade, meus pais me levaram para morar com a minha avó em uma pequena cidade a 4 quilômetros de distância de onde morávamos. Lembro-me de que no primeiro dia de aula um tio me levou até a escola, onde fui entregue à minha professora. Sem nenhum preparo, sem a mínima noção do que era uma escola, me vi diante de um mundo estranho.
A partir do momento que fui entregue à professora, eu não passava de uma criança assustada, sem noção de nada. Foi como se alguém me dissesse: “de agora em diante você vai se virar sozinho!”.
Sem a minha mãe por perto para saber como foi meu dia, para dar uma noção de organização, para olhar meu caderno, para me ajudar a me vestir ao sair para a escola, sem ninguém para dar pelo menos uma palavra de conforto (minha avó era analfabeta, não sabia desenhar nem o próprio nome, sem noção alguma para acompanhar minhas lições de casa).
Eu era uma criança que até então conhecia apenas a vida rural, sem o mínimo de convivência com outras crianças. Ao me deparar com tantas outras, levei o primeiro choque: naquele mundo estranho, que na minha cabeça era apenas um ambiente barulhento, fiquei aterrorizado.
Não conseguia fazer amizade com um único companheiro de sala de aula. Era como um animalzinho retraído, assustado e acuado, em um mundo totalmente desconhecido.
Me lembro que, com poucos dias de aula, no meu caderno tinha páginas amassadas, rabisca- das, na tentativa de copiar o ABC da professora. Ela me cobrava dedicação, e eu, tímido, não conseguia sequer responder a uma pergunta. A essa altura já não eram apenas as outras crianças que me assustavam, mas também a professora e a própria escola. Na verdade, eu vivia um pânico constante; me sentia inseguro, e tinha medo de tudo, inclusive das pessoas.
Sempre soubemos que a escola é responsável pelo ensinamento e desenvolvimento da criança. No meu caso, parece estranho dizer, mas a escola condenou-me a um futuro dramático, uma trajetória de vida desequilibrada e cheia de entraves.
“Quem nunca conheceu um gesto de amor, não tem como reconhecê-lo.”
É bom lembrar que as educadoras da época não tinham uma boa formação. A maioria não dava a devida atenção aos alunos, ignorava crianças com problemas mentais e se limitava apenas a passar as tarefas e repreender as crianças.
Uma criança sem afeto dentro de casa e no ambiente escolar tende a ser um adulto relapso, pois quem nunca conheceu um gesto de amor, não tem como reconhecê-lo.
Somente anos depois, com o nascimento dos meus filhos, é que comecei a entender o que era amor, e com o tempo me convenci de que o amor é a base da vida e que é dele que brotam os mais nobres sentimentos.
Mas o que leva um pai ou uma mãe a não serem amorosos com seus filhos? Não tenho dúvida de que a falta de expor os sentimentos é fruto da cria-
ção que se tem dentro e fora de casa. No caso dos meus pais, creio que foi pela forma como foram criados, em uma época em que a oportunidade de adquirir conhecimento era muito rara, e todo ou quase todo assunto era tabu, e por isso não havia comunicação direta com os filhos. Isto ocorreu também comigo e permaneceu durante toda a minha adolescência. Em momento algum, no entanto, quero dizer que meus pais não me amavam, até porque só o amor é capaz de atravessar tantas dificuldades e mesmo assim persistir com tamanha força de vontade.
Digo que eles – assim como provavelmente toda a geração deles – não sabiam como expressar, em gestos ou palavras, todo esse amor. E isso me causou muitas feridas.
Embora eu não acredito que o ser humano nasce predestinado, sinto que fui favorecido pelo destino por chegar até aqui, ainda com entusiasmo pela vida!

