DESTROE SE UMA CULTURA, FORMA SE UM POVO DELIRANTE
Enquanto Leonel Brizola lutava por uma educação pública de qualidade, a Rede Globo atuava, na minha visão, de forma contrária ao projeto educacional idealizado por Darcy Ribeiro. O resultado foi o enfraquecimento de um dos projetos mais importantes para o desenvolvimento do país e, consequentemente, o desgaste político de Brizola.
Após o período dos governos civil-militares autoritários, não bastava o controle político: era necessário também um instrumento de influência cultural. Um meio de comunicação com capacidade de moldar comportamentos, pensamentos e percepções de toda uma geração.
Foi nesse contexto que passei a perceber o que chamo de “engessamento cerebral” das massas — um processo que contribuiu para a demonização da política e para o afastamento crítico da população.
Na minha leitura, a televisão, especialmente a Rede Globo, exerceu papel central nesse processo. A cultura foi sendo, gradualmente, banalizada.
Assistimos a uma transição que, para mim, representa uma perda de qualidade cultural: do bolero ao funk, da elegância ao desleixo, de referências como Chico Buarque para artistas mais comerciais como Gusttavo Lima. Da dança de salão à erotização coreografada. Da sofisticação humorística de Chico Anysio e Jô Soares à escassez de referências equivalentes na atualidade.
A pergunta que fica é: onde está o compromisso com a preservação de uma cultura mais sólida, crítica e autêntica, como a que marcou as décadas de 60, 70 e 80?
Sabe-se que a formação de um povo alienado passa, muitas vezes, pela banalização da cultura e pela desvalorização da arte. Aos poucos, o superficial substitui o essencial, a ignorância ganha espaço e os valores fundamentais para uma sociedade consciente são deixados de lado.
Nesse cenário, programas de entretenimento massivo, conteúdos superficiais e narrativas tendenciosas contribuíram — na minha visão — para a formação de uma geração com baixo senso crítico político.
Se hoje muitos não compreendem certos fenômenos políticos, isso pode estar relacionado, em parte, à forma como a informação foi construída e distribuída ao longo dos anos.
Intuição, previsões e leitura de cenário
Ainda na década de 80, meu senso crítico já me levava a questionar o papel da mídia na sociedade brasileira.
Quando Fernando Collor de Mello foi eleito, previ que seu governo não se sustentaria — o que se confirmou com o impeachment.
Antes do confisco da poupança, tomei a decisão de retirar meu dinheiro dos bancos. Era pouco, mas suficiente para adquirir um carro usado. Minha leitura era simples: o sistema financeiro não teria condições de sustentar uma corrida bancária em um cenário de crise.
Mais tarde, durante a operação Operação Lava Jato, enquanto muitos viam apenas um combate à corrupção, eu já desconfiava de interesses mais amplos por trás da operação.
Há mais de trinta anos, também passei a acreditar que a hegemonia dos Estados Unidos não seria permanente. Hoje, observo sinais de mudança no equilíbrio global, com o crescimento de potências como China e Rússia.
Podemos estar presenciando o início de uma nova configuração mundial.
Reflexão final
Tudo isso faz parte das minhas leituras, dos meus erros e acertos.
Não se trata de afirmar verdades absolutas, mas de exercitar o pensamento crítico, questionar narrativas e buscar compreender o mundo além das versões prontas.
Porque, no fim, uma sociedade só evolui quando aprende a pensar por si mesma.
Zemeireles
